← VoltarBernardo Espíndola

Ficção

Entremeio

estórias dum lugar de passagem

Bem me lembro do senhor mesmo. Já faz bastante tempo desde sua última passagem por aqui, não é? Vinte anos? Eita! De lá para cá, deve notar que nossa Santo Antônio do Ermo é a mesma coisa. O senhor eu percebo que quase não mudou: o cabelo continua farto, só alvejou um bocadinho. Mas, se não tem hora marcada, senta nessa cadeira mesma, que era onde a Moema sempre ficava. Daqui do alpendre é que eu apreendo e interpreto a vida.

Em verdade te digo que, desde sua última passagem, o que se deu aqui foi nada. As horas passam mais devagar por estas bandas, suspeito. Ainda assim ou mesmo por isso muita gente se foi, em desencarne ou desenredo mesmo, estrada afora. Novidades poucas. Mas o lugar ganhou sobrenome: Santo Antônio do Ermo se é tornada Santo Antônio do Isidoro. Lhe explico.

Por ser Santo Antônio do Ermo nosso primeiro batismo, Antônio sempre esteve nosso padroeiro. A festa de junho era a tradição. Se saía o Santo Antônio da igreja e pernoitava cada dia numa residência, em novena até a tornar à paróquia com barraquinha na praça e foguetório. Frei Isidoro era quem coordenava o comemorar. Até que morreu de velho, faz uns onze ou treze anos.

Então sucedeu que veio outro padre Frei Luciano para o celebrar das missas. Aí se revelou a fraudulência: o santo em imagem que estava na paróquia não era de nome Santo Antônio, mas Santo Isidoro. E isso significou gravemente, afligindo a gente daqui.

Tensionou-se o credo na comunidade toda, induzindo os mais devotos em revisão de promessa por promessa, dízimo por dízimo, reza por reza e atos todos de boa fé direcionados para o santo errado.

Solange foi uma que se intrigou, uma vez que o marido partiu sem dizer rumo e não há tornado. E ela recebeu o santo em casa, fez rejeitamento de carne nas refeições, absteve de festejos em força de prece por retorno do cônjuge. Mas não esteve eficaz. Pediu qualquer outro marido que não viesse, abandonada. Aí culpou o santo errado pela infelicitude, pois não é casamenteiro o Isidoro Santo. Fato em realidade é que o Cecílio sumiu naquele vagão mesmo que o senhor vê adiante, pouco depois do nascimento da filha Juliana, coitada.

Doutra via, o Zaqueu em devoção inconsciente ao Santo Isidoro por si elaborou outras suspeitas. Ocorreu que depois de acolher para pernoitar o mesmo santo errado em altar na casa sua, a roça prosperou boas colheitas, e assim tem sido sucessivamente. E pôs a boa culpa no Isidoro Lavrador, que agora cultiva e cultua.

O povoado teve então que escolher qual seria o santo de ofício: se Antônio ou Isidoro. A comunidade dividiu discordância, sendo grave a controvérsia. Até que se pacificou a cizânia: a igreja teria então dois santos padroeiros.

Foi assim que Santo Antônio do Ermo se tornou Santo Antônio do Isidoro, rebatizado com festa e foguetes. Mas se perguntar pelas redondezas, o nome de fato praticado é Povoado do Ermo. Assim permanece: ermo, perdido. Aqui em verdade sempre foi passagem; nunca foi destino de ninguém. O trem mesmo só parou aqui uma única trágica vez, por acidente. Fora isso, só atravessava de uma estação para outra. Nossa vila é mesmo só paisagem: o entremeio.

Esse acidente que fez parar o trem foi o que interrompeu precoce a vida do menino Ângelo. Mas o vagão já estava aí muito antes.

A ferrovia foi suspensa depois do atropelamento, quando desativaram a linha. Ficou a estrada de ferro e esse vagão, que já estava em abandono quando eu era criança. De quando em vez eu penetrava em travessura, e lá de dentro eu via outro mundo aqui fora, em quadro. Até mais moço eu ainda ia; alguma moça namorosa conheci por lá, antes da Moema me aquietar. Mas o tempo ruiu e nunca houve quem buscasse ou requeresse esse carro. Ali se fez eterno, antes que tudo houvesse.

Há o mistério, porém, de lenda que o senhor deve reconhecer. Pois que esse vagão dia incerto parte pela estrada antiga, sentido Maniúma. Vai e volta. Eu mesmo ouvi o rangir do movimento, sem motor, sem locomotiva, sozinho vai, o que acontece noite adentro, linha afora.

Tem um pessoal por aí que crê em espiritualística ou fantasmagoria, eu conjecturo alguma ciência que ainda o explique. Fato que ocorre assim: numa ocasião sem regra, sem dia certo, tarde da noite, a roda roda, e simples vai. O barulho range do enferrugido. E some três noites e três dias, até tornar. E foi assim que primeiro o Cecílio e depois a Juliana partiram para não voltar mais… e foi assim que chegaram os quatro Antônios, filhos brotados da imbigueira de Maniúma.

Então o senhor não sabe a história da imbigueira do Maniúma…

A Serra do Maniúma é aquele paredão que se vê daqui; ali fica o lugarejo de onde vieram os quatro gêmeos. Mira lá embaixo: percebe aquelas duas casas geminadas, que são quatro? Moram ali quatro irmãos gêmeos iguais, que hoje somam quatrocentos e quarenta e quatro anos, acumulando os cento e onze de cada um, tendo nascido todos em mesmo dia. Eles e outros trinta e seis. Já lhe explico.

Esses quatro vieram do Maniúma, lugar onde nunca ninguém havia nascido. Até que o dia. E esse único não vingou. Nasceu e morreu sem meios. A mãe era a dona do bar: vendia bebida, pouca comida e alguns outros divertimentos, se você me entende. Foi mulher de muitos, até que se embarrigou, nunca se soube de quem. E o verbo se fez história.

Foi dela portanto o primeiro a nascer em terras de lá. Parto em solo feito com muita dificuldade pela mãe, sem auxílio da comunidade que só ignorava e olhava torto, em razão dos pecados. Dois dias e duas noites gritou a mãe, primeiro de dor e depois de tristeza, com o filho morto. A comunidade nem acudiu.

Sepultamento se fez só com eles dois, não havendo pai que assumisse, em cemitério distante. Mas o imbigo ela guardou. Costume é que se cura imbigo com cachaça, para secar adequado. Foi o que ela fez. Aquela tripa então murcha, seca, cai e muito até se guarda em recordação material. Mas tendo perdido o filho, a mulher cavou no terreiro e semeou ali a libra de pele que restou do pequeno. Aí sucedeu. E se fez árvore.

Ninguém cogitou aquele arbusto crescendo mais rápido do que o costumeiro. Entre tantas no quintal se ergueu galhosa tal qual uma jabuticabeira, similar mas diferente: galho em pele. Aí começaram a apontar os brotos, o que se notou. Quando entrou setembro, a árvore se encheu: floriu plena, e o bendito fruto era mesmo um imbigo — imbigo deveras, igual de gente.

Foram quarenta. E brevemente cada imbigo foi se formando criança. Até ser fato notório aquela moita de neném pendurado, em espera… e numa certa madrugada, às três horas, os quarenta cantaram em coro. O acorde despertou meio mundo; e se percebeu a harmonia até aqui, é o que dizem.

Mas nem tudo é poesia. O povo manifestava indiferença, mas apavorava por dentro. Todavia os meninos foram crescendo, sem haver quem com eles falasse, brincasse ou ralhasse. Mas os quarenta se bastavam.

Aí a piora: aos poucos, se impressionou que eles plagiavam as feições de sujeitos vários do Maniúma. Aqueles pequenos que não tinham certidão de pai — cada qual encarnou o semblante de um cidadão da localidade. Igual que nem, quarenta fiéis cuspidos e escancarados, o que vingou alvoroço em famílias muitas do lugar. Assim cada um marido foi novamente parido da imbigueira.

E crescia cada menino se aprimorando rosto idêntico a um paterno. Quatro deles, porém, figuraram uma mesma cara: a do coronel Cesáreo, que era dono do tudo em volta.

Sem filosofias, as famílias se partiram dali, temendo amaldiçoamento na terra do Maniúma desde sempre. O lugar se abandonou. Ficou a mãe e os quarenta filhos. Desde então, pouco se sabe do que se deu por lá, afinal, quem para lá tenha ido nunca há tornado.

Todavia houve certo dia que o vagão trouxe esses quatro gêmeos que mimetizaram o famoso Cesáreo. Se diz que partiram de Maniúma em plano de justiça. Depois de circular notícia de óbito do coronel, chegaram os quatro por aqui para consolidar nova moradia. Assim, não alimentamos muito avizinhamento nós com eles, que são calados em si. Mas fiamos serem boas pessoas, muito prestativos nos expedientes. Inclusive assumiram os cuidados do Boi Benevides desde o grave ocorrido.

Sobre o Boi Benevides, é o seguinte.

O Zaqueu tinha lá umas vaquinhas e o Boi Benevides, sempre bravo e famoso pela rispidez. Até que um dia, instigado pelo Ângelo do Dirceu, ele se escapou. Quando aquele touro enorme passou correndo pelo lugar, todos se espantaram; muitos correram atrás para tentar ajudar. Eis que atravessando a linha, vindo o último trem que passaria por aqui, ele estagnou imóvel como uma estátua e soltou um mugido berrante que fez tremer as casas. Suspeita-se que anteviu de acontecer o trágico cair do Ângelo entre os carros do comboio.

O trem nunca mais passou. E o Benevides, que era touro berrante, se recolheu e depois disso não mugiu mais. Nunca se explicitou outra justificação, simples silenciou. A comoção de tristeza depois da morte do Ângelo foi geral por meses. Mas o tempo passa, e o mundo prossegue seu curso com quem ainda vive. Entre tantos, esse boi não mugia dali adiante.

Porém olhava. E foi nisso que se afiou, os comuns. De tanto silenciar, a comunidade atentou para os sentidos, e passaram a acreditar que o olhar do Benevides significava e antevia. Foi a crença.

Houve multidão para consultar o secreto pelo observar daquele boi, formando fila com os dilemas todos do povoado na porta do Zaqueu. Todos ansiavam pelo veredito do profeta Benevides, oráculo do futuro e do passado. Eu também consultei, admito, para averiguar os esquecimentos da Moema, que aos poucos ia trocando as palavras e perdendo as lembranças. Nesse dia, Benevides olhou inerte para o chão e seguiu silente, o que para mim jamais significou sentido. Mas intrigou que ele me compreendesse, mirando a terra. Pouco depois faleceu Moema, sem memória de nome nem meu nem de ninguém.

Benevides seguia requisitado por todos, até que a Raquel, mulher do Zaqueu, um dia intrigou: ou sai o boi ou eu. O motivo se cogitam dois: ou foi resposta inconveniente do boi a indagação dela, ou receio de encantamento sobrenatural.

Então se entregou o boi aos quatro Antônios, que o deixam pastar no quintal a fim de capina, até hoje. Nunca mais se ouviu mugido algum vindo dele, porém há quem jure que, mesmo em noite sem lua, seu olho lampeja no escuro. E encara.

É, tudo parece ter mesmo começado no acidente do Ângelo.

O Ângelo era moleque custoso, travesso e com alguma maldade de menino… sempre correu risco desde muito pequeno nas peripécias até que foi ter com o trem em passagem no perseguimento do boi Benevides.

O Ângelo, ele dava trabalho, desenquietado. Quando ouvia a locomotiva, já corria para pegar carona até a Cachoeira do Avesso, escapando daqui para lá entre os vagões em velocidade. Pegava peixe com puçá subindo a Cachoeira do Avesso quando nem se pescava em crença de pecado. Encapetado era o Ângelo.

Mas nesse dia da fuga do Benevides, o touro passou a linha antes que o trem chegasse, buzinando; Ângelo foi atravessar a composição entre os vagões de carga para o perseguir, mas despencou entre as rodas e ali morreu.

O Juca estava do lado de lá, voltando da pesca, e me relatou. Compreendeu que o Ângelo estagnou junto com o Benevides, ouvindo o mugido alto que o boi berrou, desequilibrou e caiu nos trilhos. Foi uma tristeza, e ainda é.

Depois percebemos que a bagunça do Ângelo fez a falta, talvez porque era a agitação dele que movimentava o lugar. Aqui se estagnou ainda mais desde então, pois até o trem parou. Ficou a linha e esse vagão. Há quem acredite que ele se locomove por artimanha espiritual do Ângelo, o que não faz sentido, afinal o fenômeno já manifestava muito antes da tragédia.

O Dirceu ainda sofre, eu sei. Daqui a pouco o senhor vai observar: todo dia, quando é fim de tarde, ele passa por ali para consultar o Benevides lá nos Quatro Gêmeos. Conversa, chora, ouve o silêncio e volta para o jantar. Coitado, o Dirceu…

Eu fico aqui no alpendre, dou notícia de muita coisa, mas não faço nada muito além de rememorar os acontecimentos. Por isso gosto do conversar.

Mira o Benevides lá embaixo, olhando para o vagão.

De longe fica pequeno, mas se releva. O Juca dizia que esse comportamento do Benevides é antecipação do embarque rumo a Maniúma, jurava que o boi é capaz de prever o dia. Eu observo porque ainda planejo de me adentrar. Falta porém o destemor, eu sendo frouxo tremente. Mas hei que ainda vou para o descobrir. Se até a Juliana teve a coragem…

Se quer saber, explico. Já se contavam dezenove anos desde o desaparecimento do Cecílio. Ficou a filha e ficou a esposa, Solange, que toda noite se via sentada no alpedre em espera de algum retorno que nunca houvesse. Tantas noites ela já viu o vagão — esse mesmo parado aí na linha — partir e retornar sem que se percebesse sinal do marido ou qualquer consolo.

Mas Juliana, sendo muito novinha quando Cecílio partiu, não sentiu o abandono do pai. Cresceu tendo o avô em tutela. E o Juca criou a menina deveras como filha. E ela nunca percebeu falta do Cecílio, que partiu com ela ainda sem palavras. Até que faleceu o Juca.

E essa perda Juliana sentiu. O Juca tinha ido pescar na Cachoeira do Avesso e não tornara na hora costumeira do café, o que gerou ansiedade. Vendo o avô retornar da pescaria sobre o cavalo em galope, correu a menina para acolhida, quando notou que o cavalo chegava trotando com o Juca morto sobre a sela. Foi transtorno enorme, pois o corcel não desacelerava, e passou a fazer contorno pela praça, sem cessar. A comunidade assistiu e orou.

Foi quando o Zaqueu idealizou de mobilizar o Boi Benevides para a empreita. Posicionou-se o Benevides na porta da igreja, fazendo parar o cavalo com olhar profundo. Era puro segredo o enxergar do Benevides.

Assim, depois de setenta e sete voltas na igreja, se pôde descer do cavalo o Juca, que foi sepultado com as rédeas em punho, pois que nunca as soltou.

O sofrimento então abateu Juliana, que naquele momento fez lamento de realização concomitante da morte do avô e do abandono do pai. Dizem que as lágrimas dela escorriam da casa da Solange até a Cachoeira do Avesso, tendo ela chorado incessantes onze dias e onze noites, num lamento em soluço baixinho que ouviram todos os ouvidos daqui.

Até que um dia, para admiração do povoado, Juliana saiu serena até o vagão abandonado na linha do trem. E entrou. Perseguiu até o assento de número 19, que era sua idade. O que eu soube foi que Juliana sentou ali no banco de passageiro e viu que no assento da frente havia um embornal. Curiosamente sendo, abriu. E localizou. Dentro, calhamaço de envelopes de carta, tendo como destinatária ela mesma, Juliana Fonseca Fernandes. O remetente: Cecílio, seu pai.

As cartas datavam uma para cada ano, em data do aniversário de Juliana. Porém o que se dizia nos papiros era a revelação: Cecílio jurava suspeita de que não era seu verdadeiro pai, justificando o abandono. Já sentada ali, leu. E nunca mais tornou. E naquela mesma noite incerta partiu o trem com Juliana e as cartas. Solange talvez ainda tenha acenado em adeus, sabendo que não voltasse. Daqui consigo ver ela lá, mirando o nada, estagnada igual o Ermo.

Coitada, a Solange.

Dá dó porque findou só, primeiro, o Cecílio; depois, o Juca, em seguida Juliana. Depois a gata que quase morreu com o ataque do quati.

Então o senhor ouviu a comoção de ontem.

Barulheira aquela é deveras ocorrida, mas não foi briga de gente. Fato certo é que se captou criatura que alvoroçava vizinhança inteira, há muito tempo, animal de mato escapado para xeretar as casas nossas.

De princípio não se sabia qual fosse: raposa, gambá, sarigué, ou se gato mesmo, mais provido de carne e substância. Então se determinou o quati: viçoso, grandalhão, mas tinhoso, caracterizado de fragrância duvidosa.

Esteve por aí transtornando vida alheia dos outros: desterrou plantação aqui no quintal. Ontem se atracou em conflito com a gata de estima da Solange. Diz que a bichana desde o advento não põe mais focinho para fora de casa. Deu ela para miar em tom menor agora, e passou a observar a vista com desconfiança.

Mas a despeito de ontem, o que se deu foi a captura. Foi a ocasião para se notar que as artimanhas desse um quati não assemelham com o de costume. Era de tarde quando sorrateirou pelo quintal. Quem armou armadilha foi a Márcia, minha filha, usando carne de isca. E não é que o bicho veio quatinando pelo muro até a horta? Essa horta mesma que ele cavucava toda noite atrás de minhoca e verme, desmanchando a plantação de verdura que já não prestava, porque ali fazia sua sujeira. Não se come isso, como?

Eis que, vindo na mira da isca, entrou direto fundo na armação, logrando o embuste. A gente também tem nossas artimanhas. E se enfezou, então, a fera. Contorcia e retorcia na jaula, e rosnava. Tem nariz de porco, o quati. E máscara de cachorro, que-diga! Mas transfigurou arrepiado, de distanciar qualquer um que promovesse.

Movimentou-se a vizinhança toda àquela hora. De longe o senhor talvez tenha escutado o cheiro e os grunhidos, vieram todos ver e assistir, sem mais envolvimento. Veio Solange, Dirceu, Raquel, Zé Pedro… mas não se chegava mesmo ninguém mais perto. Não sei se por medo, asco ou receio de se encantar. E fedia.

Se fez multidão para ver, mas ninguém com a coragem de pegar o animal. Aí vi chegando os quatro irmãos. Içaram o alçapão com pau e rodo e vassoura para se encarar olho por olho. Foi quando se aquietou o quati, e ali eu vi feitiço no olhar. Era tudo tensão, e ele interpretava. Aquilo não era deste mundo. Deus esteja. Mas acredita que um dos quatro pegou o quati na gaiola com as mãos e colocou nos ombros, tal qual um bicho de estima? O quatizinho até fechou os olhos e se entregou, acomodado. Se observar bem lá na frente, acho que é ele deitado no lombo do Benevides agora, em amizade.

Assim se aquietaram as horas e os minutos. De noite ainda me peguei olhando pela janela, averiguando se ele se tornava a retornar. Mas não. Só silêncio e o brilho no olhar do Benevides.

Creio mesmo que parte hoje esse vagão.

Por que eu imagino o movimento? Alguns sinais… hoje cedinho eu fui pescar e observei mais uma vez a Cachoeira do Avesso invertendo as águas. O senhor fica intrigado com o nome da cachoeira porque não viu o ocorrer.

Lhe explico: é de época que a água sobe ao invés de descer, mas só quem olha atento observa. E o encanto ajuda a subida dos peixes para a parte de cima do ribeirão do Córrego, vencendo o paredão. O fenômeno é bonito de contemplar: o milagre dos peixes em voo ribeirão e cachoeira acima. Lá se procria.

O Juca contou que assim sempre esteve: o avessamento das águas, tendo descoberto quando entrou com o barco na lagoa para pescar um dia depois do almoço. O sono bateu e ele resolveu tirar um cochilo ali mesmo no barquinho. Eis que quando acordou, estava na parte de cima do ribeirão, tendo até o barco subido a cachoeira enquanto ele dormia. Espantado, não conseguiu remar e só deixou o barco seguir a correnteza… foi parar lá na Serra do Maniúma, num fio de água que relatou ser onde nascia o córrego. Palavras do Juca.

Era, sim, um grande amigo, o Juca. Eu também lamentei muito o falecimento dele, que tinha essas histórias todas no detalhe, muitas viu e viveu, até ser ele mesmo uma delas. Ele me atentou para os relatos, sem misticismos, só o natural mesmo se ajustando para o acontecer. Por isso fico hoje aqui: a bagagem já deixei pronta, mas eu mesmo não sei se estou.

Sou assim: muito desejo e pouco executar. Me falta o pulso da decisão; é meu jeito, desde pequeno. Eu nasci aqui mesmo nesta casa, que era do meu pai. Me lembro do pé de mamão que existia aqui no quintal, que sempre planejei de subir para colher a minha escolha. Mas vacilava com receio do tombo. Eu devia ter uns três anos e carreguei esse plano de subir no mamoeiro até uns sete, quando aprumei decidido. Avisei minha mãe que eu iria colher o mamão do café da manhã. Tomei impulso e saltei como um mico me agarrando no tronco, que se partiu. Caímos eu, o pé de mamão e os frutos todos, se espatifando no chão. Tanto adiei que quando fui já estava grande demais… a árvore não aguentou.

Assim fui sempre, eu. Eu e Moema tínhamos esse plano de subir a serra do Maniúma: promessa de casamento. Nunca fomos, sempre com justificativa de sensatez por momento fortuito. Agora ela é só memória.

Se o vagão parte hoje, a mala está feita. Eu, nem tanto.

O senhor planeja mesmo de ir andando e isso me admira. O impulso é isso: basta seguir a linha de ferro, à margem. Um caminho vai até Maniúma, o outro te leva de volta para a cidade.

Bifurcação não tem, basta seguir… porque o vacilo não está entre virar à direita ou à esquerda. A encruzilhada real é essa única estrada aqui em frente, pois se pode ir ou voltar. É nesse lugar que eu hesito. Para frente ou para trás: são os dois caminhos.

Aqui, é o entremeio.